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Graças aos conhecimentos técnicos relacionados a microinformática, parte do que aprendi durante a minha iniciação no mundo do trabalho, aos vinte anos de idade fui aprovado em um processo seletivo da área de informática de um dos maiores bancos do país na época.
O cargo era ‘sui generis’. O principal acionista do banco, um bilionário já falecido, havia trazido ao país alguns microcomputadores Apple II diretamente dos Estados Unidos, em seu jatinho executivo. Na época, existia uma reserva de mercado no Brasil que impedia a importação oficial destes equipamentos, mas ele os trouxe assim mesmo (a reserva de mercado só foi extinta em 1990).
Minha missão inicial foi permitir o uso destes microcomputadores nas ‘pequenas empresas’ do mesmo grupo econômico (que incluía fazendas de gado de corte, harás de cavalos árabes, estações de rádio FM, sorvetes gourmet e hotéis de luxo, entre outras atividades).
Com o sucesso das primeiras implementações, também começou a crescer a demanda pelo uso de microcomputadores dentro do próprio banco. Inicialmente isso se deu em áreas que não eram o ‘core’ do banco, e que não eram atendidas pela área de sistemas, que rodavam em computadores de grande porte (mainframes) da IBM.
Foi assim que implementamos sistemas de gestão de estoque no almoxarifado geral do banco e na área de Organização e Métodos (que hoje seria chamada de Processos), apenas para citar dois exemplos.
Junto com esse crescimento do uso dos microcomputadores, também foi necessário ampliar a equipe de profissionais para lidar com eles. Eu acabei assumindo a liderança dessa equipe. MEsmo sem ter formalmente o cargo de ‘gerente’, a área de Recursos Humanos me convocou para vários treinamentos de liderança.
Há de se registrar a dificuldade de encontrar profissionais com os conhecimentos adequados prontos num contexto destes. Adicioneimente, a cultura do banco incluía a formação de seus próprios profissionais. Por exemplo, o diretor geral da época havia iniciado sua carreira como office boy (chamado de contínuo na época), no próprio banco. Como consequência de ambos fatores, a área de Recursos Humanos propôs a formação de turmas de trainees para a área de microinformática, o que me levou a acumular mais esta responsabilidade.Participei dos processos de seleção e comandei pessoalmente a formação técnica dos novíssimos profissionais de tecnologia.
Em resumo, em pouco menos de quatro anos passei de trabalhar sozinho numa mesa escondida dentro do Centro de Processamento de Dados, no quinto subsolo de um dos maiores prédios na Avenida Paulista, a liderar uma equipe composta por quarenta profissionais. Alguns destes se tornariam profissionais destacados no mercado ([em breve] confira aqui a história de um deles).
O sucesso, porém, sempre cobra seu preço: neste caso, as áreas tradicionais de ‘processamento de dados’ do banco começaram a criar dificuldades na gestão do processo de crescimento da nova área (que podemos chamar de ‘politicagem’…).
Como consequência, resolvi buscar novos rumos, que me levaram a trabalhar por um curto período numa montadora de caminhões de origem europeia. Embora fosse um desafio muito interessante tecnicamente, descobri rapidamente que as disputas pelo poder eram ainda maiores. Além das disputas dentro da hierarquia da organização, ainda presenciei negociações nada transparentes com o sindicato dos trabalhadores, às vésperas da declaração de greves de trabalhadores, convenientes para a empresa poder pleitear aumentos dos preços dos veículos, controlados pelo governo naquela época.
Foi assim que no último trimestre de 1986, ano que havia iniciado com o Plano Cruzado, passei a trabalhar por conta própria, como consultor e instrutor numa diversidades de temas relacionados com a informática, e só retornei ao ambiente corporativo como prestador de serviços externo, mesmo tendo recebido diversos convites ao longo dos anos.
